O Presidente do MPLA, que por inerência é Presidente de Angola, general João Lourenço, criticou a «anarquia mundial» baseada na «lógica da força» que gera os actuais conflitos e defendeu uma nova governança das Nações Unidas para restaurar a confiança e a paz. Em síntese, foi dizer “olhai para o que dizemos e não para o que fazemos”.
O Presidente de Angola (não nominalmente eleito) disse que «vivemos hoje num ambiente de anarquia mundial em que o uso da força impera sobre a força da razão e da lei, em flagrante oposição das normas que regem as relações internacionais».
João Lourenço, que lidera um partido que está no Poder há 50 anos, discursava, esta terça-feira, na tribuna da Assembleia Geral das Nações Unidas, no primeiro dia da 81ª sessão que decorre até 28 de Setembro, em Nova Iorque, sob o lema “Restaurar a confiança, gerir a transformação: uma Organização das Nações Unidas ao serviço de todos”.
O general João Lourenço, que por sinal também é o Titular do Poder Executivo, começou por condenar o terrorismo em todas as suas formas para acrescentar que, «para além do terrorismo que continua activo em alguns países, particularmente em África, a situação de paz e segurança mundiais vêm-se agravando ano após ano».
O chefe de Estado angolano expressou «profunda preocupação» com o rumo que o mundo tomou por entender que «o aproxima assustadoramente de uma conflagração global».
«Assistimos nos nossos dias a uma subalternização e violação das regras que regem as relações internacionais, prevalecendo a lógica da força, da intimidação e da imposição de valores que decorrem da visão unilateral de alguns países na defesa dos seus exclusivos interesses», afirmou retratando fielmente, mas sem o assumir, o que se passa em Angola.
A instabilidade em várias regiões do mundo é, para João Lourenço, «uma consequência directa desta postura» e apontou os conflitos que se desenrolam na Europa, no Médio Oriente, no Golfo Pérsico e em África, enquanto cresce também a tensão na região da Ásia-Pacífico.
«A tentativa de dominação pela força das armas de países e regiões inteiras do globo vem conduzindo o mundo para uma situação de catástrofe», considerou, destacando que «a situação de segurança alimentar, energética e humanitária dos países e do mundo em geral piorou consideravelmente depois do eclodir das guerras» como as da Ucrânia e do Irão.
O general João Lourenço apontou «o envolvimento directo de alguns membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas nos conflitos mais sangrentos e destruidores da atualidade na Europa e no Golfo Pérsico, o que constitui motivo de preocupação e um mau exemplo para o resto do mundo».
«Num momento em que muito se defende a boa governação dos países, também na governança do mundo se clama por uma nova ordem mundial mais democrática e justa, que não se baseie apenas no poder do restrito clube dos vencedores de uma guerra que teve lugar há oito décadas», afirmou, esquecendo a história do seu próprio país, onde o então Presidente do MPLA, Agostinho Neto, mandou assassinar mais de 80 mil angolanos nos massacres de 27 de Maio de 1977.
O Presidente de Angola defendeu que «se torna cada vez mais premente e urgente que se proceda a uma reforma profunda do Conselho de Segurança das Nações Unidas, no qual a África, a América Latina e a Ásia deverão estar adequadamente representados, na condição de membros permanentes com todos os poderes inerentes».
O presidente do MPLA (no Poder há 50 anos) referiu ainda «a necessidade de fazer uma profunda reflexão em sede das Nações Unidas, a única instituição do planeta com legitimidade, e que alberga todas as Nações do Mundo, para se encontrarem as melhores soluções para o alcance da paz global»
João Lourenço apontou ainda que Angola tem procurado contribuir para a paz e lembrou a cimeira extraordinária da União Africana sobre os mecanismos para a detecção e resolução de conflitos, em Agosto, em Luanda, e o Fórum Panafricano para a Cultural da Paz e Não Violência, Bienal de Luanda, agendado para Outubro.
